Sabores Perdidos
De: Bianca Bernardo
O Projeto
Para a residência em TerraUna apresento o projeto “Sabores Perdidos", com o objetivo de resgatar a memória da cozinha como coração da casa. Cada mãe guarda em segredo sua receita, o seu tempero, aquilo que lhe confere sabor único. Atualmente, rodeados por
eletrodomésticos e facilidades, a função ancestral da cozinha parece estremecer, perdendo-se a filosofia de que a comida e sua preparação são ações rituais, que envolvem um sentido puro de compartilhar, e que são também ações comunitárias, nas quais todos os envolvidos se reúnem para estar em comunhão, para dividir entre si o não só alimento do corpo, mas também o alimento da alma. Minha proposta é trabalhar com crianças do ensino médio e fundamental de Liberdade, onde iremos “colher” receitas culinárias entre mães, tias, avós e bisavós.
Esse projeto foi inspirado no livro "Quando la cucina si chiamava “casa”", comprado na pequena feira de livros usados na cidade de Arezzo, onde desci por engano do acaso. Nele encontramos receitas das antigas casas de campo da Toscana, um ambiente de certa forma parecido com o interior mineiro.
Interação com o Ponto de Cultura
Após nos reunirmos e conhecermos (o projeto deverá ser divulgado tanto na escola como no Ponto de Cultura), vamos confeccionar cadernos em branco para que cada aluno ou grupo possa descrever e desenhar os ingredientes e modo de preparo das receitas coletadas. Depois, os cadernos preenchidos serão reunidos na fabricação artesanal de um Livro de Receitas, que por sua vez deverá ser doado à uma Biblioteca Pública ou para o Ponto de Cultura e Sustentabilidade. No final do período de residência,
será promovido o “Dia da Cozinha Comunitária” na Ecovila (respeitando o costume ovo-lacto-vegetariano), onde algumas das receitas coletadas no nosso "livro de sabores perdidos" serão escolhidas coletivamente para serem preparadas e degustadas por todos: as crianças autoras e suas famílias, os residentes de TerraUna, moradores locais, visitantes... Desejo que este projeto tenha um grande alcance na cidade de Liberdade e que possamos juntos trabalhar no resgate e arquivo desse patrimônio cultural. As ações serão registradas em fotografia e/ou vídeo, e o "Livro de Receitas" será digitalizado para apresentações/projetos futuros.
Sobre o artista
Bianca Bernardo é mãe do Bento, artista visual e performer, andarilha e aprendiz de cozinheira. Formada em Artes Plásticas e mestre em Artes pela UERJ, desenvolve ações poéticas que investigam o corpo como laboratório de si. Recebeu o Prêmio Chave Mestra em 2005, e em 2007 participou das Oficinas para Artistas-Educadores na Casa Daros-Latinamerica. Em 2008 realizou a residência El Levante na cidade de Rosário, Argentina, e atualmente é bolsista do 47o Salão de Artes Plásticas de Pernambuco.
Comentários
As trocas aconteceram durante esse processo e continuarão....
Obrigado pelo seu voto!
Tudo! Pensei exatamente o mesmo quando li seu projeto, existe integração entre nossas propostas e inúmeras possibilidades interessantes de diálogo desse híbrido, dessa troca. Pode ser lindo mesmo. Agora ainda mais claramente, considerando explicitas as conexões com C.Fourier e a natureza intrínseca de cada uma. Desejo também boa sorte para você. Figas!
Um beijo.
O Bento vai pirar!
Quando o Daniel ( meu filho mais velho) tinha 5 meses, fomos pra Toca da Onça, na região de Lumiar, e era um lugar bem isolado.
Ele só mamava, e ficava hooooras no peito, mas ficou tão impressionado pelo céu e pelo verdão, por tudo enfim, que não queria perder tempo mamando.
E eu meio angustiada, mãe de primeira viagem, pois ele não se alimentava há muito tempo.
Foi quando ele teve seu segundo sabor achado (...hehehe...): tasquei-lhe uma banana amassada, que ele podia comer sem perder nem uma folha caindo...
beijo
Abraço!
contato@talitacaselato.com
A cozinha muito me encanta, tenho um blog (em off) sobre isso em
http://ocosmopolita.com/o-shima-come/
onde eu conto e mostro um pouco das minhas experiências mundo afora.
Estamos conectados e nos veremos lá, onde quer que seja.
Sucesso!!! Ai frio na barriga!
cata
Gostei da origem do projeto: um livro encontrado ao descer por acaso em uma cidade estranha...
O acaso e a vontade regem nossa vida, você conseguiu uma mistura interessante.
A gastronomia em nossa época, apesar de essencial e ancestral (talvez por isso) perdeu o seu espaço no campo das Belas Artes, ficou mais associada ao deus-mercado, o que é uma lástima.
Espero que você consiga levar toda essa riqueza de memórias/experiências/sabores até Terra Una e também espero que nos encontremos por lá!
Abjos,
boa sorte!
Daniel Seda
(moráveis orgânicos)
Teu projeto é simples e lindo.
Ver a alimentação como uma ferramenta para criar intimidades e a comida em si como objeto de arte é algo que todos sempre soubemos. Finalmente alguém formaliza esta idéia para abordá-la artisticamente em Terra Una. Parabéns e boa sorte!
Gus - Caderno da Pertencença
Voltando a visitar pra te desejar um feliz 2010, vi um comentário seu mais ali embaixo (... hehehe... em que vc vai além dos 1200 caracteres), e amplia a apresentação do projeto, abrigando a vivência de ser recebida, convidada, escrevendo uma história não literal através das receitas e de uma intimidade efêmera...
Adorei!
Lindos seus cadernos!
O trabalho na argila é parecido com a culinaria
"...uma maciez cósmica enche o punho de quem esta amassando"..."A participaçao é tão total que mergulhar a mão na materia certa e mergulhar nela todo o ser".
Como disse Barchelard no livro "Terra e os devaneios da Vontade
abraços,
Drica Rocha.
Digerir, teria um milhão de coisas para dizer...
Fala da gente.
Sociabilizar!
o meu é respiralenta@gmail.com
bj :)
Quando li o primeiro comentario me puz a pensar que 'receita' nessa convivencia sera muito mais do que aquilo que se pode 'comer' - no sentido literal!! Parece que receita sera toda e qualquer troca de convivencia, troca no sentido de aprendizagem, de colaboracao...
abrazotes
Cris Ribas
Vejo minha mãe( que além de cozinheira fantastica, era poeta e pintora). Vejo também Itálias, onde fiz parte dos meus estudos. E vejo a cidadezinha encantadora de Arezzo... acaso mais que acaso... mas que acaso!!!.
Vejo rendas em teu livro e me vejo. Atualmente ando envolta em rendas.
Fiz uma exposição no Mac de Olinda neste ano intitulada Transparessência, onde apresentei trabalhos em transparência, e a transparência da renda também entrou( se te interessar dá uma olhada no meu blog: vica-arte.blogspot.com).
Só uma correção no meu projeto( livrozero): as frases finais foram "comidas"( será que foi na tua cozinha?).
Aqui vão elas:
"Na bagagem quase zero: papel e tecido em branco, cola branca, livros de cabeceira não brancos, carvão negro, pastéis de desenho.
A vivência na arte me ensina: ela é um meio efetivo de transformação. Unir sabiamente arte e ecologia. Isto é um sim, pretendo aprender e compartilhar."
Se te interessar coloquei o projeto na íntegra no meu blog.
Abraço e boa sorte.
Virginia
Escrevo a todos trazendo uma reflexão para inspirar nossas escolhas sobre as propostas mais indicadas para este tempo de trabalho nas montanhas de Liberdade.
Muitas são as oferendas de beleza, arte, encantamento.. e há uma motivação sincera para compartilharmos (além deste espaço virtual) um encontro em Terra Una...
Acredito que a oportunidade de participar de um projeto como este para cada artista inscrito é muito especial... mas digo que além desta beleza há uma ainda maior que é a de muitas crianças, jovens, adultos e os ainda "mais adultos"... em receber em sua cidade (de 6.000 habitantes ! que não tem biblioteca pública, além das existentes nas escolas, que não tem sala de cinema, teatro ou qualquer outro espaço onde se possa manifestar a arte... em todos os seus aspectos... ) um centro cultural...
Para que a comunidade sinta-se motivada a chegar até o Ponto de Cultura o convite para as vivências precisa ser claro e ao meu ver que tenha (o projeto) continuidade após os meses do Interações Florestais.
"A passagem do vento em si só trás mudanças
mas se uma semente cai em solo fértil....
quanta diferença !"
Se possível, gostaría de saber como cada participante visualiza a continuidade de seu projeto no Ponto de Cultura.
Ainda estou lendo os projetos...
muita beleza, muita criatividade,
presença do Divino !
Jaiva Dharma (Josiane Fontana)
realizações
ah "bunito" o seu cartaz
Como vai?
Li seu projeto, me interessou a comensalidade que propõe em determinado momento. Suponho seu interesse pela gastrosofia. (?)
Cai como toalha xadrez em dia de pic.nic “A dinâmica das paixões” e outros fourierismos.
As palavras “saber” e “sabor” são bem parecidas, não é mesmo?
Vou colaborar com uma receita ótima!
Um abraço y êxito.
Sobre a catalogação das ideias, veja meu comentário para o Bruno.
Não consigo imaginar essas ideias como moeda. Na verdade elas são tudo, menos moeda... e, por isso mesmo, imagino que seja difícil a troca física, material. De qualquer forma, as trocas já estão acontecendo e continuarão, favorecendo outras possibilidades de percepção do sentido de TROCA.
Sucesso pra vc!!!
tudo bem?
quando escrevi meu projeto não tinha em mente encerrá-lo no lugar escola, mas usar este espaço de produção e convívio para irradiar a proposta pela cidade de Liberdade.
minha intenção é acompanhar de muito perto o processo de coleta e anotação das receitas entre as famílias e é claro, tenho interesse e vontade enorme de entrar na casa das pessoas e ser recebida por elas com uma "receita especial"... o projeto não exclui de forma alguma que esse encontro possa acontecer, pelo contrário, ele deixa em aberto o desejo pulsante de ser convidada.
explico: para mim, o movimento de "acolher" deve acontecer naturalmente, não como uma condição para o desenvolvimento de um projeto, mas através de um convite espontâneo. pretendo que a "entrada" na intimidade do lar/casa do outro seja um tempo de hospedagem dentro do sentido mais puro da amizade incondicional, quando aceitamos nossas diferenças e (com)partilhamos - aqui, através de receitas que passam entre as mulheres, de geração em geração, receitas que podem contar a história genealógica de uma família, e que são na maioria das vezes "decoradas" (naquele sentido primeiro, de "aprender/guardar no coração").
portanto, acho que o projeto acontece mesmo é do lado de fora e a escola nos serve como um trampolim para o mergulho fantástico de um projeto que pretende escrever a história de uma cidade através do ponto de vista da cozinha, com medidas de afeto e carinho.
um beijo,
Me pergunto se ele é pertinente dentro do lugar escola, ou se seria também interessante pensar nisso tudo sugerindo aos moradores da região que nos receba e ensine a preparar alguma receita "especial". Digo, "nos receba", pq adoraria fazer essas visitas e descobrir os segredos culinários/afetivos "escondidos" nessas casas. Seria uma forma muito especial de troca e contato.
Sucesso pra vc!
seu projeto é muito bonito e saboroso, cliquei na foto e já ganhei 4 receitas, um abraço :)


