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Mayra Martins

Campinas, SP, 1982. Vive em Porto Alegre, RS

www.caminhoinverso.blogspot.com

jardim das escolhas /  observatório de sereno / sob (re) sereno / sob (re) queda /  guarda chuva de filó

Colher  chuva  



Eu chamava assim meu projeto. Aconteceram algumas chuvas naquele mês de março, mas também aconteceram noites brancas, manhãs úmidas, cachoeiras nevoeiras escondidas. E houve silêncios e encontros em caminhadas sem propósito. E quando a chuva vinha eu entendia que eu não queria mais colhê-la e sim, vê-la passar por mim. E foi assim com as outras coisas também: observar: o sereno, as águas da cachoeira, a noite, os dias... Queria observá-los passar. Isso que independente da gente, passa. Em Terra Una, Liberdade, compreendi que estamos entre. Surgiu então “Sob (re) sereno”:


O sob ou sobre fala dessa relação com o em cima e embaixo. E o entorno, os “aos lados”.  É de certa forma a relação do homem com o universo. A sensação de estar abaixo e acima ao mesmo tempo (mudando o eixo, a referência e as escalas do visível, do tátil). Na verdade, a sensação de não saber onde se está. De perder o sentido de lugar/espaço/ proporção. Não perder, mas de não ter a capacidade de perceber estas relações, tanto do grandioso quanto do mínimo. É também o desejo de encontro com isto que vem do universo, do infinito, do desconhecido. O que não se vê direito ou exatamente. Como o sereno, um esconder-aparecer. E que se forma a partir de acontecimentos que fogem dos olhos. Talvez o sereno seja o que se vê de todo o processo que não se vê. Como a chuva, as gotículas da cachoeira, o vento, as sombras.


Esta foi a minha busca: registrar (e o registro também está no corpo) o que foi possível de ser registrado, tocar o tocável, mas que faz parte de um intocável e quase imperceptível. Isso me lembra que a gente cria frente às impossibilidades do desejo (e talvez frente à impossibilidade do saber, do compreender). Ou melhor, a gente cria porque deseja. Criamos pequenas possibilidades. Meus projetos são realizações de pequenas possibilidades frente a tudo que é imperceptível, invisível, intocável, mas que sabemos que anda por aí. Como sabemos? Não sei.

(Durante este um mês convivi com os artistas Jean Sartief, Caroline Valansi e Felipe Freitas,  com a artista e crítica de arte convidada Ana Luisa Lima, com moradores e passantes de Terra Una:  vivência indispensável de troca e criação).