Pequenos tratados sobre


Ana Luisa Lima

crítica convidada

1978, Recife, PE

www.revistatatui.com

Sobre Caroline Valansi, Terra Una, 20 de março de 2010.

A experiência do salto; ou, como ser Libre(1)


Hoje, nada mais raro do que um artista que se permite um salto “Libre” sem suas redes de segurança procedimentais que sempre lhe asseguram o discurso da coerência. A necessidade de controle –  do discurso e da forma – é  sintomática nessa geração que surge nas universidades, notadamente, nos anos 2000. Mergulhado numa realidade mercadológica, na qual a arte se mostra cada vez mais ativada apenas por esta demanda, fica a pergunta: onde andará a  necessidade criadora (a pulsão criativa) do artista?


Pulsão de vida e de morte, prazer e angústia, diluíram-se nos modos do fazer contemporâneo (?). É curioso perceber que a arte antes pensada como um “exercício experimental da liberdade”(2), agora, para muitos, é só exercício, procedimento, longe de ser uma experiência da liberdade. O experimental parece só se potencializar quando há demarcações de limites. Diante da liberdade, da possibilidade plena de todas as coisas, prefere-se menos o risco. Paradoxalmente, embora não haja, na contemporaneidade, um programa estético comum, o excesso das repetições formais e de assuntos tacitamente formaram cânones – de processos e visualidades.


O procedimento em si não é um mal quando meio e não fim. Pode ser um grande aliado do artista ajudando-o perceber a potência dialógica dos materiais (concretos e abstratos). Nessa direção, podemos pensar os trabalhos de Caroline Valansi.


Com formação em fotografia e cinema, não à toa é possível perceber, na maioria dos trabalhos de Caroline, o cuidado meticuloso com os elementos compositivos: enquadramento, luz, cor... Mas ao vislumbrar que tal background lhe dava uma espécie de lugar seguro de atuação, em sua passagem por Terra  Una, optou pelo salto, por explorar outras possibilidades para além do fotográfico – sem necessariamente abrir mão do uso da fotografia ora como matéria, ora como linguagem, ora matéria e linguagem simultaneamente.


A obra Trans-forma carrega em si a síntese  –  bastante intrigante  –  de um trabalho que se pretende formal, mas se mostra afeito à narrativa. Ao fazer uso da fotografia como matéria, Caroline  mistura este elemento cultural à natureza (raízes e terra) criando, na forma, um embate dessas vozes tão distintas, ao mesmo tempo que, juntas, tais vozes tornam-se o argumento que cria a possibilidade de ricas narrativas.


No desenvolvimento do trabalho Trans-forma, a artista se viu questionada pelos elementos naturais. A partir de então, começou a coletar e inventariar tipos de raízes, ninhos de pássaros e cascas de árvores. No processo de inventário das raízes, surgiu a série de gravuras-desenhos feitos por frotagem com grafite e pastel oleoso. Do estudo dos ninhos abandonados pelos pássaros, percebeu que estes eram feitos de raízes. Nesse percurso, voltando a sua própria raiz (para sua avó materna que lhe é a referência no uso da costura) começou a intervir nos ninhos fazendo costuras com linha vermelha, como se quisesse devolver a estes ninhos – agregando a estes o significado de sua própria história – o status de lar.


Na reconstrução dos ninhos, deu-se conta da repetição do uso da linha vermelha como elemento formal(3). Isso lhe fez questionar se a presença da linha(4) seria mesmo uma necessidade-significado ou o uso excessivo de uma fórmula. Dessa interrogação surgiu o trabalho Ninho de Gente que se trata de um objeto/escultura e algumas séries fotográficas.


Ninho de Gente acaba por ser a resposta aos questionamentos  feitos pelos elementos naturais e  por si mesma . Na construção do objeto, Caroline abandona todo e qualquer elemento cultural (embora use a costura como método) fazendo-o apenas com cipó, palha e mato. O ninho feito para gente devolve à natureza a pergunta sobre o natural e o cultural.


Embora a priori pensado para ser apenas objeto/escultura, Ninho de Gente acabou se tornando (também) séries de fotografia quando começou a ser fruído espontaneamente. Tomadas pelo exercício de plena liberdade, as pessoas propunham novos lugares e maneiras de fruir. As imagens feitas a partir dessas experiências são, sobretudo, um diálogo sincero entre artista, obra e público. Não à toa que cada proposta de fruição carrega também a possibilidade de uma nova narrativa. Cada imagem da série é uma síntese dos desejos tanto da artista, quanto do público, por isso mesmo que se sustenta enquanto obra individualmente e quando em conjunto. Sob estas mesmas perspectivas, o trabalho Rio Seco foi construído – feito de terra e cascas de árvores.


A necessidade de coerência – formal e no discurso – responde mais às demandas de mercado, menos à pulsão criadora e criativa do artista. Na experiência do salto, não  há garantias de uma aterrissagem segura. Mas, o certo é que a insegurança imbricada nessa vivência há de sempre reinventar possibilidades de novos voos. E quem voa não se afasta do que é e do que faz. Afasta-se apenas do lugar seguro, previsível. Deixa de lado a coerência (a lógica) e vive a consistência: sua maneira de estar no mundo e que nesse sentido todas as construções estão impregnadas do que é (ainda que sempre gerúndio).




Sobre Jean Sartief, Terra Una, 22 de março de 2010

A geografia da afetividade



É certo que o termo “artes visuais”, dentro em breve, terá que ser substituído por um outro que consiga abarcar a quantidade de linguagens, assuntos, movimentos, proposições já hoje entendidos como campo de atuação da arte contemporânea. Híbridas, conectadas, entrelaçadas, as linguagens redefinem parâmetros, reposicionam fronteiras.


Influenciados, entre outras tantas referências, pela teoria da fenomenologia de Merleau-Ponty (que se debruça sobre a ideia de sentimento-pensamento e pensamento-sentimento não como coisas estanques mas amalgamados numa simbiose necessária para o conhecimento de mundo), os neoconcretos (anos 1950-60) propõem o conceito de antiarte como uma “solução” para o não engessamento das práticas artísticas e experimentais. É quando a arte, aqui no Brasil, passa a, cada vez mais, considerar o corpo, o sentimento, a afetividade, a participação.


Nessa direção é que a proposição de Jean Sartief também contribui para que a fronteira permaneça elástica impossibilitando de(limitar) o campo de atuação das artes. Como um mensageiro solitário(5) ele vai de encontro ao público entrelaçando palavras, significados e afetos. Com sua costura imaginária, Jean consegue justapor, de uma só vez, pessoas e lugares tão distintos numa só voz. No simples entregar e colher os depoimentos por onde passa, vai-se fazendo o desenho de uma nova geografia. Nesta nos é permitido perceber semelhanças nos desejos, anseios, desabafos (...) a despeito da diversidade cultural diariamente vivida por essas pessoas que ele encontra. Assim, cada mensagem individual vira um clamor comum.


Noutro momento do trabalho, as mensagens são trazidas de volta à vida ao alcance ampliado pela caixinha de som(6) (re)pousando em outros destinatários (para além dos que já deram suas mensagens). Nessa dinâmica, acalentados pela empatia (ao reconhecer naquelas vozes algo de seus também) estes a quem as palavras vivas (re)encontram destinos passam a configurar também na geografia do afeto.





Sobre Mayra Martins Redin, Terra Una, 21 de março de 2010.

Sobre colher chuva; ou, pequenos tratados sobre coisas inúteis



Desvendar os trabalhos de Mayra Redin será sempre um tentar, como o trabalho em si mesmo é uma tentativa para. Sempre prestes a. Sempre ao ponto de. Sempre que tem cara de nunca, embora não o seja de fato porque quando damos o primeiro passo para a espreita, já estamos lá, naquilo. Estar ou não imerso nas proposições, sensivelmente elaboradas por ela, é um estado inequívoco: sabemos do começo. Porém, não do fim. Se é que haverá um fim.


Se nos aproximarmos das suas palavras-ações acerca da chuva, por exemplo, o quanto disso só por si já não se fará impregnado? Então, a cada nova chuva, sua voz  ressoará no fundo de nós. Possivelmente, já esmaecida – diluída. Mas. A substância dos seus assuntos não é esse sempre mas?


A obra-vivência se trata de (in)definição (e se quer (res)guardada desse jeito: num cantinho, embora sempre à mão). Trata-se de pequeninas fronteiras prontas para uma travessia atenta. Mergulhar nas ações que ela propõe pressupõem um estado de alerta porque se quer percorrer o ínfimo:  o mínimo, o (in)fixo, o (in)certo. É tudo mesmo assim: sim-e-não e não-e-sim.


Os trabalhos de Mayra tratam da minúcia, do detalhe, do olhar sobre o irrelevante. Nesse sentido, são proposições para todos, enquanto alvo; para alguns, naquilo que é acessível. Porque experienciar tais propostas requer, no mínimo, a alma desnuda, despudorada, sem medo das ameaças do ridículo. Trazem consigo mesmas uma simetria com as portas de Hermann Hesse - “só para loucos” (Do livro o Lobo da Estepe).


Me pego pensando sobre esse seu debruçar pelas coisas mínimas. O quanto disso tem de inteiro? Tratar das coisas inúteis com propriedade parece sempre arranjar um caminho inevitável para as grandes coisas. Assim percorreu vida e obra de Manoel de Barros.


Por que não saber da superfície, do visível, do tátil, do possível? Por que não mergulhar na gota, no orvalho, no sereno? Por que não tratar do despercebido? Do já sabido, mas nem sempre experienciado?


Mayra propõe percursos aparentemente tautológicos entre a dimensão textual (escrita) de seu trabalho e suas proposições-obras. Mas o fato é que, ainda que uma coisa esteja atravessada na outra, são diversas. Para aquele que experiencia as proposições-obras abrir-se-ão percursos completamente diferentes daqueles que ela mesmo descreveu em seu texto. Assim como aquele que ler, há de ter caminhos outros pela frente, diferentes dos que estão ali escritos – muito mais  diversos dos que não puderam ser experienciados.


Isso se dá pela natureza particular de cada linguagem. A experiência estética e a escrita. Nem tudo o que pode ser experienciado no corpo pode ser traduzido em palavra. Assim como cada palavra pode levar a uma viagem outra que a experiencia estética é incapaz de proporcionar. Dessa forma abre-se esse duplo necessário na obra de Mayra: 1. o desejo de fazer o corpo se saber enquanto superfície que se deixa impregnar de. 2. a vontade de dizer daquilo que já foi (vivido) ser nova possibilidade de ser (de alguma forma) apreendido.


Em Mayra Redin, palavras e ações têm um caráter continuum. Cada nova ideia, cada nova ação, cada nova palavra sobre, cada nova tentativa de, somadas, tornam-se pequenos tratados de coisas inúteis – não por isso (é possível que por isso mesmo!) pungentemente bonitos.





1 - Libre, 2005, é o título de uma série em fotografia de Caroline Valansi que fala da liberdade na possibilidade de um salto de alguém despido apenas ‘amparado’ por um imenso céu azul.
2 - Palavras de Mário Pedrosa, 1968.
3 - na série Memórias Inventadas em Costuras Simples, 2006 a 09, a linha vermelha é elemento formal e assunto.
4 - Essa mesma ‘linha vermelha’ também aparece como elemento formal no trabalho Ressonâncias da terra, 2010, Terra Una.

5 - Projeto Palavra de um só momento para um espírito humano que deseja ardentemente, em ação desde 2005, no qual o artista aborda uma pessoa aleatória e entrega uma mensagem escrita (de um último participante) e esta nova pessoa lhe escreve uma nova mensagem que é entregue a uma 3ª e assim por diante.
6 - No projeto Palavra Viva, o artista cria o deslocamento de sons. Com a mixagem de mensagens de pessoas e sons da natureza ele consegue fazer com que as mensagens das pessoas sejam levadas para o ambiente natural; e os sons da natureza, para os espaços de circulação intensa de pessoas na cidade.


“São as próprias coisas, do fundo do seu silêncio, que deseja conduzir à expressão.”

Merleau-Ponty em o Visível e o Invisível.


“Então, o artista, na produção da obra, tem que mostrar – não é uma questão voluntária, é uma necessidade existencial –, todas as suas raízes, todas as suas experiências, todo seu processo de formação estética, e todo o seu sentir: sua afetividade está relacionada com sua vida cotidiana. Tudo isso recolhe, por um lado, toda sua tradição – porque ele é esta tradição – e necessariamente vai se mostrando em tudo que produzir.”

Jesus Torres Vázquez, em entrevista para revista Tatuí número 4.